O planeta tem paisagens grandiosas.
Daquelas que nos fazem sentir pequenos.
Há, no entanto, quem desafie essa ordem natural e, om sua presença, as tornam ainda maiores.
São pessoas que dão significado novo ao espaço onde trilharam suas vidas. A serra do Roncador, em Mato Grosso, bem no centro do Brasil, é um desses locais
que navega entre o grandioso e o engrandecido. Imponente, misteriosa, abundante em vida selvagem, ela se tornou um lugar mítico graças à passagem de dois grandes mitos do século 20: o inglês Percy Fawcett e o brasileiro Orlando Villas-Bôas. Antes
da história, contudo, vamos entender onde estamos. O Roncador é uma espécie de continuação geológica da chapada dos Guimarães. Geologicamente, é resultado de um soerguimento de 800 quilômetros, desde Barra do Garças, no Mato Grosso, até a serra do Cachimbo, no Pará. Trata-se de uma elevação que separa as bacias dos rios Araguaia e Xingu, com altitudes que variam
dos 300 aos 800 metros. Ainda hoje, é habitada por índios, recheada de animais, enfeitada por cachoeiras e permeada por lendas sobrenaturais. Uma combinação e tanto, que já atraiu de viajantes de carne e osso a seres intraterrenos – sim, intraterrenos, e você já saberá quem são eles.
Percy Harisson Fawcett nasceu em 1867 na cidade litorânea de Torquay, em Devon, sul da Inglaterra. Um homem 4x4, sem freio e inabalável diante de qualquer obstáculo. Como muitos britânicos de sua geração, desejava ir longe. Longe de casa, longe do conforto, longe do bom-senso e muito perto dos perigos de um
planeta ainda a ser desvendado. Assim eram os empire builders (construtores de impérios), como classificou o escritor Antônio Callado em sua reportagem sobre Fawcett escrita em 1952 para os Diários Associados, de Assis Chateaubriand.
Quando exercia sua patente de coronel no Ceilão (hoje Sri Lanka), ainda no começo do século passado, Fawcett perdeu-se na floresta e deu com uma grande pedra com inscrições rupestres.
Copiou-as. Qual não foi sua surpresa quando, anos depois, encontrou na
Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro um documento bandeirante de 1753 que registrava inscrições encontradas “no interior do Brasil e que coincidiam com as que ele anotara no seio da floresta em Taprobana”, como escreveu Callado, referindo-se ao ainda mais antigo nome do país asiático.
Para fazer a imensa história mais curta, Fawcett desligou-se do exército inglês e abandonou sua família, de filhos ainda pequenos, para lançar-se nas florestas e nos territórios
ignotos da América do Sul, cada hora contratado por um governo para fazer o levantamento
de rios e o estabelecimento de fronteiras.
Quando se cansou de trabalhar para Bolívia e Peru, tendo pas-
é conhecida como Portal. Muitos acreditam se tratar
de entradas para o mundo intraterreno, o centro
da Terra. O misticismo reverbera ainda em atrações
como a cachoeira dos Duendes, o vale dos Sonhos e um
descampado batizado de discoporto (sim, campo de pouso
para discos voadores).
Não se tem notícias de nenhuma visita extraterrestre até
o momento. Nem intraterrestre, diga-se. Já a respeito do trágico
destino de Fawcett sobram teorias. Apesar de ter
desaparecido (com o filho e um amigo deste), o inglês
conseguiu transformar seu sonho de encontrar
Z na busca de muitos outros aventureiros.
Calcula-se que mais de uma centena de
pessoas organizaram expedições em busca
do mito. Diversos também não retornaram.
Nas décadas que se seguiram
ao sumiço, o mundo se dividiu entre a
simpatia a Fawcett (virou instantaneamente
um mito na Europa e Estados
Unidos, inspirando a criação de muitos
personagens literários) e a implicância
(no Brasil, passou a ser visto como uma
pessoa voluntariosa e que sempre desafiava a
soberania nacional). Todos, no entanto, sempre
quiseram saber de seu paradeiro: Terra
adentro em harmonia com a civilização de Z
ou apenas numa cova rasa em algum canto esquecido
do Roncador?
Orlando Villas-Bôas (1914-2002), nosso maior
indigenista e um dos idealizadores do Parque Indígena
do Xingu, criado em 1961, participou da pioneira
expedição Roncador-Xingu em 1943. Décadas depois,
obteve dos índios calapalos a confissão das mortes dos
sado dificuldades extremas e deixado mortos e feridos pelo
caminho (vários de seus companheiros de expedições), passou
a levantar fundos na Europa e nos Estados Unidos para suas
próprias aventuras. Ele tinha certeza de que encontraria uma
cidade perdida no coração do Brasil, para os lados da serra do
Roncador. Batizou-a de Z.
Veio para a região de Cuiabá em 1921. Anos antes, em 1911, o
americano Hiram Bingham, à frente de uma expedição da Universidade
de Yale, havia redescoberto e apresentado ao mundo
Machu Picchu. Fawcett, no entanto, não encontrou civilização
alguma nos rincões do Brasil Central. Em 1925, quando ainda
propagava aos quatro ventos pela Europa que faria uma descoberta
capaz de mudar o rumo da História, desapareceu em algum
lugar da serra do Roncador; ou talvez ali perto, na atual Reserva
Indígena do Xingu. Ele, o filho Jack e um amigo deste, Raleigh
Rimmell, nunca mais foram vistos.
Antes de seguirmos no encalço de Fawcett, porém, vamos
dar uma volta pelo presente. Depois de um passeio pela cidade
de Barra do Garças, com 80 mil habitantes e um parque de
águas quentes, a dica é acelerar até o alto da serra do Roncador.
Lá de cima, avistam-se vales lindíssimos, ali chamados de furnas.
Os paredões de arenito alaranjado contrastam com o céu
azul do cerrado. Dali se enxergam pedras gigantescas empilhadas
e torres pontiagudas chamadas de portais pelo pessoal da
região. Uma caverna inundada com um lago cristalino também
96 [Mitrevista] dezembro 2013 97 [Mitrevista] dezembro 2013
‘ingurieses’ e a indicação do local onde estaria a ossada de Fawcett.
Quanto aos dois outros ‘ingurieses’, os índios os teriam
flechado e largado seus corpos ao sabor da correnteza de um
rio. Segundo Villas-Bôas, os calapalos lhe disseram que Fawcett
quebrara regras fundamentais de convívio na aldeia – entre
elas, teria batido numa criança. E, por sua arrogância, fora
executado. Os ossos estariam enterrados perto de uma lagoa de
águas esverdeadas.
Foi o quanto bastou para que em 1952, o jornalista Assis
Chateaubriand, dono dos Diários Associados e um dos homens
mais poderosos do Brasil, ter a ideia de levar o outro filho de
Fawcett, Brian, para o Xingu. E não apenas levou seus jornalistas
e fotógrafos como convidou o talentoso repórter
Antonio Callado (1917-1997), do concorrente
Correio da Manhã carioca. Os ossos
foram desenterrados, os índios, entrevistados, fotos foram tiradas
e vendeu-se jornal como nunca. Comprovou-se porém que
a ossada era de um homem menor (Fawcett tinha mais de dois
metros de altura) e a arcada dentária não conferia com a do coronel
britânico. Até hoje a família de Fawcett se recusa a fazer
um exame de DNA – consta que Villas-Bôas guardou por anos
os ossos em sua casa. De qualquer modo, a respeito da negativa
da família, Orlando diria: “Eles jamais trocariam o mito por um
punhado de ossos”.
No último grande episódio envolvendo uma expedição sobre
o tema, em 1996, cerca de uma dezena de exploradores brasileiros
foram aprisionados pelos calapalos. Só foram soltos ao
desistirem da empreitada – e depois de pagarem um resgate por
todo o material, carros e barcos inclusos. Fica então o mistério
ainda insolúvel. Se você entrar agora na internet, encontrará
Brasil 4x4 caro 05 por que decidiu ir atrás da história
do Fawcett? Era uma história virgem,
fascinante, ninguém havia contado, não havia
nenhuma biografia de Fawcett.
onde acha que ele está? É difícil de saber.
Não há uma pista. Nada. Encontraram um
esqueleto nos anos 50 que podia ser dele,
mas se comprovou em Londres que não era.
como foi sua experiência no local? Foi
uma experiência não prevista, de enfrentar
índios armados. Eles viram que tínhamos
dois barcos motorizados e queriam aqueles
barcos para eles. Tínhamos uma autorização
da aldeia e da FUNAI, mas o líder de outra
aldeia teve a ideia de nos sequestrar. Tivemos
de comprar um carro para termos nossa
liberdade. Mas quando saímos do parque,
resgatados de avião, descobrimos que eles
haviam sequestrado também os nossos
carros. Tivemos de fugir para evitar mais
confrontos. Eles não entendem nada desse
acontecimento [do Fawcett]. Para eles, é uma
história trazida de fora para dentro.
Quais mistérios você desvendou? viu
algo relacionado a seres intraterrenos?
Existem crenças em outros mundos lá. Isso
não se desvenda. Se eu visse alguma coisa
sobrenatural, provavelmente teria procurado
um psiquiatra.
Já voltou à serra do roncador? Sim. É um
lugar bom para se explorar de bike, tem trilhas
maravilhosas ao redor da montanha. Também
gosto de subir nas montanhas de lá.
Fonte: Caminho dos Heróis
Daquelas que nos fazem sentir pequenos.
Há, no entanto, quem desafie essa ordem natural e, om sua presença, as tornam ainda maiores.
São pessoas que dão significado novo ao espaço onde trilharam suas vidas. A serra do Roncador, em Mato Grosso, bem no centro do Brasil, é um desses locais
que navega entre o grandioso e o engrandecido. Imponente, misteriosa, abundante em vida selvagem, ela se tornou um lugar mítico graças à passagem de dois grandes mitos do século 20: o inglês Percy Fawcett e o brasileiro Orlando Villas-Bôas. Antes
da história, contudo, vamos entender onde estamos. O Roncador é uma espécie de continuação geológica da chapada dos Guimarães. Geologicamente, é resultado de um soerguimento de 800 quilômetros, desde Barra do Garças, no Mato Grosso, até a serra do Cachimbo, no Pará. Trata-se de uma elevação que separa as bacias dos rios Araguaia e Xingu, com altitudes que variam
dos 300 aos 800 metros. Ainda hoje, é habitada por índios, recheada de animais, enfeitada por cachoeiras e permeada por lendas sobrenaturais. Uma combinação e tanto, que já atraiu de viajantes de carne e osso a seres intraterrenos – sim, intraterrenos, e você já saberá quem são eles.
Percy Harisson Fawcett nasceu em 1867 na cidade litorânea de Torquay, em Devon, sul da Inglaterra. Um homem 4x4, sem freio e inabalável diante de qualquer obstáculo. Como muitos britânicos de sua geração, desejava ir longe. Longe de casa, longe do conforto, longe do bom-senso e muito perto dos perigos de um
planeta ainda a ser desvendado. Assim eram os empire builders (construtores de impérios), como classificou o escritor Antônio Callado em sua reportagem sobre Fawcett escrita em 1952 para os Diários Associados, de Assis Chateaubriand.
Quando exercia sua patente de coronel no Ceilão (hoje Sri Lanka), ainda no começo do século passado, Fawcett perdeu-se na floresta e deu com uma grande pedra com inscrições rupestres.
Copiou-as. Qual não foi sua surpresa quando, anos depois, encontrou na
Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro um documento bandeirante de 1753 que registrava inscrições encontradas “no interior do Brasil e que coincidiam com as que ele anotara no seio da floresta em Taprobana”, como escreveu Callado, referindo-se ao ainda mais antigo nome do país asiático.
Para fazer a imensa história mais curta, Fawcett desligou-se do exército inglês e abandonou sua família, de filhos ainda pequenos, para lançar-se nas florestas e nos territórios
ignotos da América do Sul, cada hora contratado por um governo para fazer o levantamento
de rios e o estabelecimento de fronteiras.
Quando se cansou de trabalhar para Bolívia e Peru, tendo pas-
é conhecida como Portal. Muitos acreditam se tratar
de entradas para o mundo intraterreno, o centro
da Terra. O misticismo reverbera ainda em atrações
como a cachoeira dos Duendes, o vale dos Sonhos e um
descampado batizado de discoporto (sim, campo de pouso
para discos voadores).
Não se tem notícias de nenhuma visita extraterrestre até
o momento. Nem intraterrestre, diga-se. Já a respeito do trágico
destino de Fawcett sobram teorias. Apesar de ter
desaparecido (com o filho e um amigo deste), o inglês
conseguiu transformar seu sonho de encontrar
Z na busca de muitos outros aventureiros.
Calcula-se que mais de uma centena de
pessoas organizaram expedições em busca
do mito. Diversos também não retornaram.
Nas décadas que se seguiram
ao sumiço, o mundo se dividiu entre a
simpatia a Fawcett (virou instantaneamente
um mito na Europa e Estados
Unidos, inspirando a criação de muitos
personagens literários) e a implicância
(no Brasil, passou a ser visto como uma
pessoa voluntariosa e que sempre desafiava a
soberania nacional). Todos, no entanto, sempre
quiseram saber de seu paradeiro: Terra
adentro em harmonia com a civilização de Z
ou apenas numa cova rasa em algum canto esquecido
do Roncador?
Orlando Villas-Bôas (1914-2002), nosso maior
indigenista e um dos idealizadores do Parque Indígena
do Xingu, criado em 1961, participou da pioneira
expedição Roncador-Xingu em 1943. Décadas depois,
obteve dos índios calapalos a confissão das mortes dos
sado dificuldades extremas e deixado mortos e feridos pelo
caminho (vários de seus companheiros de expedições), passou
a levantar fundos na Europa e nos Estados Unidos para suas
próprias aventuras. Ele tinha certeza de que encontraria uma
cidade perdida no coração do Brasil, para os lados da serra do
Roncador. Batizou-a de Z.
Veio para a região de Cuiabá em 1921. Anos antes, em 1911, o
americano Hiram Bingham, à frente de uma expedição da Universidade
de Yale, havia redescoberto e apresentado ao mundo
Machu Picchu. Fawcett, no entanto, não encontrou civilização
alguma nos rincões do Brasil Central. Em 1925, quando ainda
propagava aos quatro ventos pela Europa que faria uma descoberta
capaz de mudar o rumo da História, desapareceu em algum
lugar da serra do Roncador; ou talvez ali perto, na atual Reserva
Indígena do Xingu. Ele, o filho Jack e um amigo deste, Raleigh
Rimmell, nunca mais foram vistos.
Antes de seguirmos no encalço de Fawcett, porém, vamos
dar uma volta pelo presente. Depois de um passeio pela cidade
de Barra do Garças, com 80 mil habitantes e um parque de
águas quentes, a dica é acelerar até o alto da serra do Roncador.
Lá de cima, avistam-se vales lindíssimos, ali chamados de furnas.
Os paredões de arenito alaranjado contrastam com o céu
azul do cerrado. Dali se enxergam pedras gigantescas empilhadas
e torres pontiagudas chamadas de portais pelo pessoal da
região. Uma caverna inundada com um lago cristalino também
96 [Mitrevista] dezembro 2013 97 [Mitrevista] dezembro 2013
‘ingurieses’ e a indicação do local onde estaria a ossada de Fawcett.
Quanto aos dois outros ‘ingurieses’, os índios os teriam
flechado e largado seus corpos ao sabor da correnteza de um
rio. Segundo Villas-Bôas, os calapalos lhe disseram que Fawcett
quebrara regras fundamentais de convívio na aldeia – entre
elas, teria batido numa criança. E, por sua arrogância, fora
executado. Os ossos estariam enterrados perto de uma lagoa de
águas esverdeadas.
Foi o quanto bastou para que em 1952, o jornalista Assis
Chateaubriand, dono dos Diários Associados e um dos homens
mais poderosos do Brasil, ter a ideia de levar o outro filho de
Fawcett, Brian, para o Xingu. E não apenas levou seus jornalistas
e fotógrafos como convidou o talentoso repórter
Antonio Callado (1917-1997), do concorrente
Correio da Manhã carioca. Os ossos
foram desenterrados, os índios, entrevistados, fotos foram tiradas
e vendeu-se jornal como nunca. Comprovou-se porém que
a ossada era de um homem menor (Fawcett tinha mais de dois
metros de altura) e a arcada dentária não conferia com a do coronel
britânico. Até hoje a família de Fawcett se recusa a fazer
um exame de DNA – consta que Villas-Bôas guardou por anos
os ossos em sua casa. De qualquer modo, a respeito da negativa
da família, Orlando diria: “Eles jamais trocariam o mito por um
punhado de ossos”.
No último grande episódio envolvendo uma expedição sobre
o tema, em 1996, cerca de uma dezena de exploradores brasileiros
foram aprisionados pelos calapalos. Só foram soltos ao
desistirem da empreitada – e depois de pagarem um resgate por
todo o material, carros e barcos inclusos. Fica então o mistério
ainda insolúvel. Se você entrar agora na internet, encontrará
Brasil 4x4 caro 05 por que decidiu ir atrás da história
do Fawcett? Era uma história virgem,
fascinante, ninguém havia contado, não havia
nenhuma biografia de Fawcett.
onde acha que ele está? É difícil de saber.
Não há uma pista. Nada. Encontraram um
esqueleto nos anos 50 que podia ser dele,
mas se comprovou em Londres que não era.
como foi sua experiência no local? Foi
uma experiência não prevista, de enfrentar
índios armados. Eles viram que tínhamos
dois barcos motorizados e queriam aqueles
barcos para eles. Tínhamos uma autorização
da aldeia e da FUNAI, mas o líder de outra
aldeia teve a ideia de nos sequestrar. Tivemos
de comprar um carro para termos nossa
liberdade. Mas quando saímos do parque,
resgatados de avião, descobrimos que eles
haviam sequestrado também os nossos
carros. Tivemos de fugir para evitar mais
confrontos. Eles não entendem nada desse
acontecimento [do Fawcett]. Para eles, é uma
história trazida de fora para dentro.
Quais mistérios você desvendou? viu
algo relacionado a seres intraterrenos?
Existem crenças em outros mundos lá. Isso
não se desvenda. Se eu visse alguma coisa
sobrenatural, provavelmente teria procurado
um psiquiatra.
Já voltou à serra do roncador? Sim. É um
lugar bom para se explorar de bike, tem trilhas
maravilhosas ao redor da montanha. Também
gosto de subir nas montanhas de lá.
Fonte: Caminho dos Heróis
www.roncadorexpedicoes.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário